Todos somos filhos de Deus — observações sobre o preconceito

DONALD HALE WALLINGFORD

Da edição de novembro de 1987 dO Arauto da Ciência Cristã

Recentemente peguei no nosso jornal local, em sua volumosa edição de domingo, e, só na primeira seção, li quatro notícias relacionadas com o preconceito e os efeitos dele. As conseqüências do preconceito e do pensamento preconceituoso são nocivas a todos nós, e cada pensador sincero, cada servo humilde do único Deus, Deus que é todo o bem, pode ajudar a remover esse fardo de cima das criaturas e da sociedade.

Um dicionário define preconceito, em parte, como “opinião ou julgamento preconcebido … opinião ou inclinação desfavorável a qualquer coisa, sem motivos justos e sem suficiente conhecimento prévio”. Este tipo de pensamento preconceituoso não só limita nossa perspectiva e o acesso a idéias e experiências novas e úteis, mas também leva ao tratamento desumano de nosso próximo. O preconceito étnico, racial, religioso ou de classe resulta, muitas vezes, em uma ou outra forma de discriminação, podendo chegar até a brutalidade, assassinato e, até mesmo, a genocídio. Em alguns países do mundo, esse tipo de discriminação é, atualmente, ilegal, em outros, não; mas, de qualquer maneira, dificilmente é o preconceito o caminho que Cristo Jesus nos mostrou. Por ser um equívoco, um erro no pensamento, pode ser curado através do raciocínio científico correto e do poder da Verdade e do Amor.

O preconceito e o pensamento preconceituoso são deveras produtos da mente carnal, e o Apóstolo Paulo, em sua epístola aos romanos adverte todos os cristãos, de ontem e de hoje, do perigo dos pendores da carne, ao dizer: “O pendor da carne dá para a morte. … Por isso o pendor da carne é inimizade contra Deus.” 1 Na Ciência Cristã, esse pendor da carne, ou mente carnal, é, muitas vezes, denominado mente mortal; é aquela mente materialista que pretende existir em cada um de nós como elemento inicial de todo pensamento e ação errados, e é antípoda da Mente imortal, que é Deus.

Essa assim chamada mente mortal, sendo “inimizade contra Deus”, introduz todos os nossos males e problemas — dos quais o preconceito não é o menor. Diz-nos que uma pessoa tem menos valor porque tem certos traços, enquadra-se em certa categoria, podendo-se, portanto, esperar dela conduta inferior. Se, como Cientistas Cristãos, estamos nos esforçando para ver além e através das aparências da matéria no que tange a pretensões da mente mortal a respeito de doenças e limitações, temos de orar com idêntica firmeza para ver além e através dessas pretensões da mente mortal com relação a noções estereotipadas ou preconcebidas sobre alguém que, de alguma maneira, associamos com sua raça, cor, nacionalidade, legados, religião, idade ou sexo.

Se nos formos basear nessas aparências superficiais para decidir se uma pessoa deve ser aceita ou rejeitada, condenada ou elogiada, certamente não estaremos contribuindo para curar o preconceito. Na verdade, o estaremos apoiando. Só contribuíamos para curá-lo quando atingimos ver o homem como a imagem individual e espiritual de Deus, quando nós mesmos expressamos as qualidades espirituais do amor e da fraternidade que pertencem ao homem como o reflexo de Deus.

Por que é que a humanidade se recusa a fazer esse esforço curativo? Mary Baker Eddy, a Descobridora e Fundadora da Ciência Cristã, diz: “A natureza do indivíduo, mais obstinada que as circunstâncias, se achará sempre argumentando em favor de si mesma — de seus hábitos, gostos e vícios.” E ainda nos adverte: “Essa natureza material se esforça em fazer pender o fiel da balança para o lado oposto à natureza espiritual; pois a carne milita contra o Espírito — contra tudo e todos os que se opõem ao mal — e pesa em extremo na balança contra o elevado destino do homem.” 2

“O elevado destino do homem.” Certamente cada um de nós sabe que o tem. Qual é? Jesus no-lo mostrou. Não seria o do crescente apreço, a compreensão e a demonstração da natureza real do homem como filho perfeito do único e perfeito Pai-Mãe Deus? Como é que se atinge este “elevado destino”? Certamente que não ao limitar ou condenar outros, pondo na balança pesos contra o progresso.

Nesta, como em toda outra faceta do trabalho de cura manifesto pela Ciência Cristã, o quadro que pinta de modo sensual ou material o homem como um mortal físico, tem de ser trocado pelo verdadeiro conceito do homem que expressa, ou reflete, as qualidades de Deus. Essas qualidades se manifestam em honestidade, integridade, sinceridade, beleza, coragem, gentileza e outras mais. A não ser que façamos, em espírito de oração, o esforço decidido de ver cada um em sua verdadeira luz como o filho de Deus, sobrecarregamo-nos de temores e limitações desnecessários. Pomos pesos no prato errado da balança. Há progresso somente à medida que cada qual luta para obter e reter uma noção cristalina da realidade espiritual e uma convicção estimulante e profunda da necessidade de amar aquilo que sabe ser a realidade espiritual, como Jesus nos ensinou.

Esta disciplina espiritual não é fácil, e ninguém diz que é. São necessárias humildade e vigor crísticos para olhar além e através do quadro de amargura, ódio e desconfiança, através de névoa e nuvens de incompreensão, até ver os raios do sol da Verdade, na qual toda a humanidade é reconhecida como sendo, em realidade, a expressão do ser de Deus. A visão de Cristo Jesus acerca desta realidade final era tão clara que o levou a comer com publicanos e pecadores e a curálos, e a dizer, a respeito daqueles que o crucificavam: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” 3

Deve ser ressaltado aqui que essa expressão de amor fraternal e perdão não constitui modo otimista ou pouco prático de abordar a vida. Não se sofre nem se perde nada, vivendo dessa maneira. Pode ser, no entanto, que se leve tempo para aprendê-lo, conforme verifiquei por experiência própria. Eu me criei em meio à mistura de raças de uma de nossas grandes cidades, e concordava com os preconceituosos e, sem dúvida, dei minha contribuição para as correntes de preconceito a precipitarem-se contra os que eram considerados “forasteiros”, ou os que pertenciam a algum grupo racial ou étnico. Embora a vizinhança se compusesse de uma mescla, a turma intolerante a que eu pertencia sempre encarava com desdém pessoas de outros bairros e as consideradas “diferentes” e, às vezes brigava com elas. A cada um desses grupos dávamos nomes depreciativos, e as conversas freqüentemente eram entremeadas de acusações amargas, apelidos insultuosos ou insinuações aviltantes.

Mais tarde, quando algumas das coisas que eu aprendia na Escola Dominical da Ciência Cristã começaram a ter eco em meu pensamento, aquilo que eu fazia e dizia começou a me incomodar. Percebi que o bem que eu aprendera a procurar e a reivindicar para mim na Escola Dominical, tinha de ser reivindicado para todos. Dei-me conta de que havia feito mal, e, assim, começou a cura. À medida que eu orava, percebia claramente que tinha de ampliar o meu amor pelos outros. Em resultado, fiz o esforço consciente de ver o homem espiritual de Deus como o ser verdadeiro de cada pessoa com quem eu entrava em contato. Pouco a pouco, fui me livrando do atoleiro de preconceito em que estava metido. Posso ter perdido a companhia de alguns a quem considerava amigos, mas ganhei muito mais.

Livrei-me da nuvem preconceito e passei a ter muitos amigos, das mais diversas condições sociais, de várias raças e grupos étnicos e religiosos. Quando deixei dos preconceitos e aprendi a procurar o bem e a esperá-lo de todos, minha própria vida ficou mais fácil e produtiva. Harmonia em todas as coisas foi ficando cada vez mais aparente, e algum espinho de amargura era removido quando e onde aparecesse.

Percebi também que a cura do preconceito é uma via de duas mãos. É preciso haver compreensão e paciência de ambos os lados, nessa controvérsia, quer se trate de pretos ou brancos, de cristãos ou judeus, de empregados ou empregadores. Todos serão abençoados quando um maior número de pessoas compreender que o único Espírito é o verdadeiro Pai-Mãe de cada um de nós.

Nessa unidade não há espaço para acrimônia ou ressentimento. Se nos apegamos a injustiças passadas, não haverá como fugir das seqüelas presentes dos erros cometidos no passado. A despeito de quão injustos estes tenhem sido, por fim terão de ser perdoados, porque não fazem parte da criação de Deus e, por isso, não têm realidade espiritual e científica. Pensar ou crer de outra maneira só fará aumentar a dor e retardar a cura.

Para tanto, temos o exemplo confortador de Jesus, pois, com o profundo amor que tinha a cada um dos filhos de Deus, curou as chagas que lhe foram infligidas e deixou claro que em seu amor incluía a todos, até mesmo aqueles que o perseguiram. A nós, é preciso fazer o mesmo. Não há outro caminho.

1 Romanos 8:6, 7.  2 Miscellaneous Writings, p. 119.  3 Lucas 23:34.

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Sobre Primeira Igreja de Cristo, Cientista Porto Alegre-RS

A Primeira Igreja de Cristo, Cientista Porto Alegre-RS, Brasil, foi fundada em 1957. Tendo sido iniciada décadas antes como um Grupo Informal e mais tarde, uma Sociedade de Ciência Cristã. Ela foi fundada por famílias de alemães, dentre as quais: Schmidt, Holderbaum, Trentini, Bopp, Mutzberg, Young, Klein, Hamman, Knor, Bier, Beier, Wendt, Völker, Fhurmeister, Heckrath, etc... Conheça mais sobre a historicidade no Arquivo Histórico Digital da Ciência Cristã no Brasil: http://sites.google.com/site/arquivocienciacrista/
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